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ELEIÇÕES EM BELÉM |
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ENTENDA |
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| Decifrando esfinges | |
| Augusto Barata* | |
| Dentre
as esfinges eleitorais que perduram à espera de quem se disponha a decifrá-las
inclui-se, certamente, a senadora Ana Júlia Carepa (PT), desde já favorita
na corrida eleitoral pela Prefeitura de Belém. Uma das lideranças sindicais
dos bancários, condição da qual foi catapultada para a política partidária,
ela apresenta uma biografia marcada por mandatos inconclusos e pela ausência
de realizações mais palpáveis, traços capazes de esfarinhar qualquer prestígio
eleitoral, mas que a senadora petista dribla com seu inegável carisma,
favorecida pelas circunstâncias, e por um apurado senso de oportunidade,
que potencializa seu bem articulado proselitismo. “O
fato de ser mulher, de abraçar causas populares e de crescer junto com
o PT são decisivos para o êxito que se confunde com a trajetória de Ana
Júlia”, analisa o sociólogo Américo Canto, diretor geral do Instituto
Acertar, a quem coube dirigir a pesquisa sobre intenção de votos para
as eleições municipais de 2004 em Belém. Os fatores elencados por Américo
Canto inegavelmente procedem, mas a eles certamente deve-se somar uma
nuance que favorece Ana Júlia: por ser público e notório que ela e o prefeito
Edmilson Rodrigues (PT) são desavindos, embora pertençam ao mesmo partido,
a senadora aparentemente não se deixa contaminar pelo inevitável desgaste
da atual administração municipal, embora dela também faça parte através
de prepostos. Sem esquecer, naturalmente, que após um primeiro momento
de estridentes protestos contra a política econômica do governo Lula,
ela buscou a salvaguarda do silêncio obsequioso, evitando os riscos do
confronto aberto com o Palácio do Planalto, com o qual votou na reforma
da Previdência Social, depois de marcar posição para consumo externo. Contencioso
– Eleita deputada federal em 1994, sem nada arriscar Ana Júlia acabou
eleita em 1996 vice-prefeita de Belém na chapa de Edmilson Rodrigues,
em cuja vitória nem o mais convicto petista apostava no início da campanha.
Na época, as bandeiras vermelhas só inundaram as ruas de Belém às vésperas
do primeiro turno, quando uma pesquisa de intenção de votos publicada
pelo jornal “O Liberal” antevia a vitória petista, confirmada nas urnas
e ratificada no segundo turno. Na prefeitura, ocupou a Secretaria Municipal
de Obras (Semob), na qual teve uma passagem discreta, até ser marginalizada
na esteira de divergências com o prefeito Edimilson Rodrigues, cuja truculência,
na luta política com sua vice, contribuiu para vitimizar Ana Júlia. Esse
processo de vitimização, do qual até hoje se beneficia a atual senadora
petista, foi reforçado pelas circunstâncias que cercaram a sua derrota
para Luiz Otávio Campos, na ocasião militando no PPR, na eleição para
o Senado, em 1998. Ficou claro, na percepção popular, que Ana Júlia fora
derrotada, em verdade, pela máquina administrativa posta a serviço da
candidatura do “senador do governador”, conforme Almir Gabriel, então
inquilino do Palácio dos Despachos, apresentou Luiz Otávio. Pacientemente,
Ana Júlia aguardou 2000, elegendo-se, com uma votação histórica, para
a Câmara Municipal de Belém e certamente servindo para alavancar com seus
votos, em nome da fidelidade partidária, a candidatura do desafeto político
Edmilson Rodrigues. Relate-se,
em nome da verdade e para ser fiel à História, que nesse hiato Ana Júlia,
marginalizada e humilhada por Edmilson Rodrigues, chegou a flertar com
o PDT, na prévia de um namoro que não se consumou, conforme as versões
de bastidores – nunca confirmadas -, porque não obteve a garantia, do
então governador Almir Gabriel, de que seria a candidata preferencial
do Palácio dos Despachos à Prefeitura de Belém, em 2000. Veio 2002 e,
com uma votação que soou como um desagravo do eleitorado, Ana Júlia elegeu-se
para o Senado, favorecida também pelo arrastão lulista. Diz-se no PT,
intramuros, que pessoalmente a senadora gostaria, mesmo, era de se resguardar
para disputar o governo do Pará, em 2006. Mas, por conta do seu cacife
eleitoral, se viu compelida, por pressões da direção nacional do partido,
a aceitar a idéia de disputar a Prefeitura de Belém. Para alívio, diz-se
também no PT, do prefeito Edmilson Rodrigues, cuja ambição seria chegar
ao Palácio dos Despachos, em 2006, favorecido pela candidatura à reeleição
do presidente Lula. Sem
brilho – Em tese, pelo menos, até pelo fato de ter recentemente concluído
dois mandatos consecutivos como governador do Pará, Almir Gabriel (PSDB)
seria o principal oponente de Ana Júlia, na eventualidade de se dispor,
já com mais de 70 anos, a participar da disputa pela Prefeitura de Belém.
Mas, a despeito da imagem que fixou como bom administrador, Almir Gabriel
não parece dispor de luz própria, dependendo do calor da máquina oficial.
“Para quem acabou de deixar o governo do Estado, era de se esperar um
melhor desempenho, mas me parece que o ex-governador careça de maior brilho,
de carisma”, assinala Américo Canto. Ao lado da ausência desses atributos,
pesam contra Almir Gabriel, o que ganha força em se tratando de um eleitor
mais esclarecido, o episódio de Eldorado dos Carajás e o ressentimento
dos servidores públicos estaduais, cuja perda salarial média, durante
seus oito anos de mandatos, ficou em torno de 55%, segundo o Departamento
Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese). Aparentemente,
a alternativa mais palatável para se contrapor à candidatura de Ana Júlia,
depois de Almir Gabriel, seria
o senador Duciomar Costa (PTB), um político populista, que faz da suposta
filantropia um instrumento de arregimentação eleitoral e que carrega o
estigma de ter sido processado pelo exercício ilegal da profissão de médico,
em uma ação que prescreveu, por conta de um ordenamento jurídico que favorece
a impunidade. Derrotado em 2000 por uma minguada diferença de votos por
Edmilson Rodrigues, acusou a este, através do seu marketeiro, de ter sua
vitória foi pavimentada por uma pesquisa publicada pelo jornal “O Liberal”,
cujas projeções não se confirmaram nas urnas. “Seu estilo populista favorece
a candidatura, mas o fôlego dela depende do calor oficial”, antevê Américo
Canto, cuja leitura é corroborada pelos fatos: Duciomar Costa elegeu-se
senador, em 2002, favorecido pelo estímulo, algo escandaloso, do governador
Almir Gabriel. Populismo
obreiro – Outra opção, como alternativa para enfrentar Ana Júlia, poderia
ser o ex-prefeito de Ananindeua Manoel Pioneiro (PSDB), que renunciou
ao seu segundo mandato e transferiu seu domicílio eleitoral para Belém,
habilitando-se, por conta própria, a participar da disputa pela Prefeitura
de Belém. Se não teve o veto de nenhum tucano de alta plumagem, também
não contou com o aval de nenhum deles às suas pretensões. Com
seu populismo obreiro, cujos efeitos foram potencializados pela massiva
e contínua divulgação de suas realizações na mídia, Manoel Pioneiro, até
pela proximidade da cidade com Ananindeua, ampliou sua imagem até Belém.
Resta saber se, sem dispor do calor da propaganda oficial contínua e massiva,
seu nome sobreviverá até as eleições de 2004. “Mas trata-se de uma opção
que jamais poderá ser descartada, face suas características, que podem
ser amplificadas, dependendo dos apoios costurados”, avalia Américo Canto. Quanto
a Wladimir Costa (PMDB), embora com inserção nos segmentos mais populares,
no rastro do espaço privilegiado que ocupa na mídia eletrônica, por conta
de um estilo repleto de arrogância ele padece de uma rejeição que necessita
ser aplacada, para torná-lo um nome palatável. Mais palatável a longo
prazo e melhor brindado para o bombardeio dos eventuais adversários, talvez
fosse o nome da ex-deputada federal Elcione Barbalho (PMDB), que acaba
de sair de uma disputa eleitoral credenciada por uma expressiva votação
para o Senado, embora tenha sido derrotada por Duciomar Costa, na esteira
da cristianização que lhe impôs o PT, após as lideranças do partido se
comprometerem a apoiá-la, em dobradinha com Ana Júlia Carepa. Resta saber
se ela terá élan para correr o risco do desgaste de um novo revés. “Dona
Elcione carrega a força do apelo feminino, agregado ao trabalho social
que desenvolveu na Ação Social do governo”, sublinha Américo Canto, confrontado
com essa possibilidade. De
resto, dentre os nomes hoje com maior visibilidade, tem-se o deputado
estadual Martinho Carmona, ex-presidente da Assembléia Legislativa, a
qual comandou quando ainda militava no PSDB, do qual migrou para o PDT,
após oito anos de uma conflitiva e tormentosa convivência com o núcleo
do governo Almir Gabriel. Satanizado pelos tucanos mais chegados ao ex-governador,
rompeu com o PSDB nas eleições de 2002, ao apoiar a candidatura do vice-governador
Hildegardo Nunes (PTB), embora disputando a reeleição pela legenda tucana.
Político do segmento evangélico, com uma visão muito pragmática do jogo
político, que o faz sobrepor conveniências a princípios, ele é desde já
pré-candidato a prefeito de Belém e trata de viabilizar seu nome
com a determinação com a qual presidiu a Assembléia Legislativa, que comandou
por quatro anos, negociando pontualmente – sem abrir mão de sua autoridade
– o apoio do Legislativo ao Executivo. O que deu combustível à irritação
e ao ressentimento de Almir Gabriel e dos áulicos deste, que jamais o
perdoaram por essa manifestação de independência em relação aos desejos
do então inquilino do Palácio dos Despachos. * Jornalista
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